Hoje finalmente decidi voltar ao Fôrno após muitos meses da minha última visita — 01/06/2024. Já havia comido o pudim de leite lá, umas duas ou três vezes, antes de começar esse projeto de avaliações dos pudins.

Sábados são meus dias preferidos, mas este foi um sábado atípico que se estende desde quinta-feira, feriado do Corpus Cristi. Confesso que me sinto náufrago em São Paulo esses dias, já que todos os meus amigos estão viajando, espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Pensei em aproveitar da melhor maneira que podia.

O dia começou leve, às 8h meu despertador tocou me chamando para o tênis, que joguei mal. Voltei pra casa e falando com minha mãe no telefone tive a ideia de ir ao Fôrno, desbravar as poucas quadras desse mar de asfalto que separam minha ilha particular do restaurante. Tomei banho para recuperar a energia e nadei até lá, ouvindo um podcast interessante sobre a memória. Aparentemente momentos de grande esforço tendem a gerar as lembranças mais persistentes, revisitadas constantemente durante a vida e que quando cativadas com carinho, podem nos trazer prazer. Dei um sorriso pensando na ladeira que teria de subir na volta para casa (nada demais, mas a preguiça era absurdamente grande).

Cheguei cedo no restaurante, mais ou menos meio-dia e ele até parecia fechado da entrada. Os paulistanos ainda estavam se recuperando da noitada anterior, com poucos gatos pingados espalhados pelo andar superior, todos em bandos de dois ou mais — eu era o único isolado da matilha. Me aconcheguei em um canto confortável no balcão (nunca tinha visto um balcão com poltronas), pedi o sanduíche de pastrami de sempre, uma cerveja e abri o livro que levei.

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Ainda estou lendo o tal de Tao of Physics, um livro interessante que mostra os paralelos entre as filosofias orientais e a física moderna. Especificamente, li sobre como a teoria geral da relatividade se assemelha à visão dinâmica do oriente, que traz em seu cerne a interconexão do espaço e do tempo, diferentemente da nossa intuição ocidental. O texto viaja por diversos lugares, chegando inclusive a insinuar que o tempo é reversível por natureza, mas um trecho (uma citação do Louis De Broglie) me pegou em cheio: “Each observer, as his time passes, discovers, so to speak, new slices of space-time which appear to him as successive aspects of the material world, though in reality the ensemble of events constituting space-time exist prior to his knowledge of them”.

Nesse momento, ainda distraído, fui abordado pela amigável garçonete que me falou “olha, temos a mesma tatuagem” me mostrando a bela cafeteira italiana tatuada no seu braço, “mas a minha eu fiz na prisão”, completou. Em seguida comentamos como a tatuagem é sempre confundida com uma cuscuszeira, e fiquei feliz de ter descoberto esse lugar no espaço-tempo em que consigo compartilhar essas inquietações com alguém. Com certeza lembrarei desse dia, mesmo que imperfeitamente.

De qualquer forma, prossegui para pedir o pudim, que chegou rapidamente. Sempre achei a apresentação interessante, mas mandei esse vídeo num grupo de amigos e um deles a comparou com um filme do Cronenberg:

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Passei a ver a lata com outros olhos.

O pudim em si é delicioso. A calda apresenta um toque de canela que o distingue de todos os outros pudins que já provei. A massa é ótima também, sem furinhos, e a consistência é um pouco mais gelatinosa que o normal, o que curiosamente não prejudica a cremosidade. A porção é generosa até demais e preferiria que viesse em 50% do seu tamanho.

O doce apresenta um preço salgado de R$ 26,00 e enche bastante. Voltaria novamente, mas confesso que provavelmente apenas em pelo menos mais uma volta ao redor do sol. Até lá, teremos a memória imperfeita desse dia aqui relatada.

Apresentação: 🍮🍮🍮

Consistência: 🍮🍮🍮

Sabor do creme: 🍮🍮🍮🍮

Sabor da calda: 🍮🍮🍮🍮

Média final: 🍮🍮🍮🍮